Embalse el Yeso no inverno

Embalse el Yeso no inverno

O quanto você é capaz de arriscar para ter uma foto do Embalse el Yeso, mesmo no inverno?

Como muitos de vocês já devem saber, o Diego e eu nos dedicamos a responder da maneira mais atenciosa e dedicada possível a cada um dos e-mails que nos escrevem solicitando passeios e pedindo esclarecimentos sobre todo tipo de dúvida e apreensões a respeito desse novo país que decidiram descobrir.

Uma das perguntas mais frequentes é se estamos ou não realizando o nosso tradicional passeio ao interior do  Cajón del Maipo no inverno, onde visitamos o Embalse El Yeso e terminamos o dia mergulhando no calor vulcânico das Termas del Plomo (quem já viveu essa aventura conosco sabe que incluem várias outras coisas que não vou contar aqui, para manter o suspense e animá-los a viajarem com a gente).
Pois bem, nossa resposta é sempre a mais categórica possível: esse é um passeio perigosíssimo durante o inverno e quero explicar-lhes o porquê.

Por que ir ao Embalse el Yeso no inverno pode ser tão perigoso?

O caminho para o Embalse El Yeso é um caminho que não recebe muita manutenção do município ao qual pertence, o Povoado de San José. Quem faz a manutenção operativa do caminho e deixa com condições seguras para poder transitar é a mineradora El Romeral, que aproveita os meses do verão, quando não tem neve no caminho, para extrair a maior quantidade de minerais possível. Quando começam as primeiras nevascas, essa empresa mineradora entende que já não é seguro seguir operando e manda seus trabalhadores de volta para a cidade. É aí que o Embalse el Yeso volta a recuperar sua inacessibilidade e, junto com ela, o que o faz selvagem e hostil. A neve transborda nos caminhos, cobre ladeiras intermináveis e tudo fica branco. Neste contexto, serei sincera, existem dois tipos de operadores turísticos: os que entendem essa linguagem e os que querem tirar o máximo de proveito dela. Estes últimos continuarão operando no Embalse el Yeso durante o inverno, com turistas que muitas vezes desconhecem as características do destino (ou que mesmo conhecendo, fariam qualquer coisa para mostrar a foto para os amigos) e com guias e motoristas que dificilmente receberam a mínima instrução para trabalhar na montanha e que estão somente orientados a conseguir dinheiro, custe o que custar. No Chile, não temos um ministério do turismo, então não existe nenhuma entidade de regularize ou fiscalize esta questão.

Mas então, quais são os riscos do caminho ao Embalse el Yeso no inverno?

Contarei rapidamente uma história. Há pouco mais de um mês meu irmão chegou de visita. Ele só conhecia o Embalse el Yeso por fotos e estava ansioso para vê-lo com seus próprios olhos. Nós já tínhamos deixado de operar depois da primeira nevasca, em abril, mas decidimos levá-lo, assumir o risco, entendendo que era NOSSO risco, que não iríamos expor ninguém com o objetivo absurdo de apenas ganhar dinheiro.

Quando chegamos lá, o que encontramos foi pior do que imaginávamos. O caminho estava fechado a vários quilômetros antes de chegar ao Embalse el Yeso e haviam centenas, sim, centenas de pessoas, a grande maioria turistas brasileiros. Seria necessário caminhar. Vocês verão pelas fotos que a paisagem está composta por um caminho estreito e sinuoso, que rodeia o Embalse el Yeso e que está completamente coberto de neve. Isso pode ser maravilhoso para quem não conhece a neve ainda, mas o caminho em si, principalmente nos lugares onde não chega sol, está coberto de gelo e isso é perigosíssimo para quem não tem experiência e nem o equipamento técnico adequado. Ninguém parecia se dar conta do risco que corriam caminhado pelos caminhos estreitos e totalmente congelados e escorregadios, à beira de um precipício que, se caísse, te levaria diretamente às águas de desgelo do Embalse el Yeso. Espero que o seu guia saiba nadar e espero que ele esteja ali para te ajudar, porque todos os motoristas que vimos no caminho dormiam em seus veículos enquanto o resto caminhava pelos corredores de gelo. Muitas pessoas caiam, escorregavam e tiravam fotos de avalanches frescas que impediam o caminho. Sim, avalanches frescas. Podem buscar informações na internet; o  TripAdvisor  está cheio de “maravilhosos passeios ao Embalse el Yeso” que terminaram sendo histórias aterrorizantes. Mesmo estando equipados (tínhamos crampons nos sapatos, uma espécie de grampo que impede escorregar), rádios para nos comunicar, mantas térmicas, enfim, todas as precauções possíveis, tivemos medo e decidimos não continuar, principalmente porque de tempos em tempos sentíamos como se a neve do Embalse el Yeso estalasse nos picos mais altos, ameaçando cair. Nessa parte eu paro e respiro, porque depois de três anos subindo o Embalse el Yeso vários dias por semana durante os meses de verão, acredito que consegui fazer certos pactos com a montanha, que posso respeitá-la e, sobretudo, respeitar as pessoas que confiam em nós quando decidem conhecer os Andes. Me enche de impotência ver como há pessoas expostas e se expondo com tanta irresponsabilidade ao fazer o passeio durante o inverno. Sou apaixonada quando falo sobre isto e tento passar essa experiência, porque desejo firmemente poder desempenhar esse ofício que amamos em um meio profissionalizado, respeitoso e que consiga sustentar condições mínimas de segurança. Mas subo a montanha e vejo motoristas dormindo em seus veículos (veículos de cidade), enquanto seus passageiros, entre eles crianças e mulheres com salto alto (sim, salto alto), caminham por áreas congeladas à beira do precipício. Perco a fé e penso que o único que me resta é deixar essa tarefa com vocês: cuidem-se, porque muitas vezes seus operadores de turismo não o farão por vocês.

Este texto foi publicado originalmente no ano 2016. Desde o ano 2019 após um acidente com duas vítimas fatais, existe uma proibição legal, portão na estrada e letreiros para evitar que as pessoas acessem a área.

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